segunda-feira, 11 de março de 2019

Dom Erwin Kräutler, o profeta da Amazônia.


No dia 11 de março de 2019 teve início o ano acadêmico da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE. Para a aula inaugural foi convidado o Bispo Emérito do Xingu no Pará Erwin Kräutler, que nas palavras do Diretor do Departamento de Teologia Prof. Padre Jaldemir Vitório SJ: “O Profeta da Amazônia que trocou o frio dos Alpes Austríacos pelo calor da Floresta Amazônica”.



O dia teve inicio com a Celebração Eucarística presidida pelo Reitor da Faculdade Prof. Pe. Geraldo Luiz De Mori SJ, e nesta santa celebração, a mística amazonense estava nas músicas e no mantra: “Tudo está interligado como se fôssemos um./ Tudo está interligado/ nesta casa comum”.

Ao fim da Missa todos se dirigiram ao Auditório Dom Luciano M. de Almeida tendo algumas intervenções artísticas e espirituais colocando em evidência o Mantra mencionado. Após a formalidade cívica com a fala do Reitor da FAJE, o Prof. Padre Vitório apresentou Dom Erwin Kräutler, portanto, dando início a aula.

 



Dom Kräutler em sua fala profética disse de forma explícita que a Amazônia é um desafio não só para a Igreja, mas de toda a humanidade. As empresas estrangeiras deixam a floresta com uma paisagem lunar ("desértica, cheia de crateras"), e pior, têm o aval do governo para isso. No ano passado a refinaria norueguesa Hydro Alunorte localizada na cidade de Barcarena no Pará teve vazamento de dejetos de bauxita em algumas de suas barragens provocando a contaminação de diversas áreas. Se tal vazamento acontecesse na Noruega a refinaria estaria fechada e os responsáveis presos. Como aconteceu no nosso país, a empresa nega a responsabilidade e os responsáveis ficam impunes.


Depois de Usina Hidrelétrica de Belo Monte, agora uma empresa canadense quer construir a maior mina de ouro do Brasil localizada as margens do Rio Xingu. Com o apoio do governo que diz lucrar com os royalties, “o Canadá vai ficar com o ouro enquanto o Brasil fica com as toxinas no meio ambiente, com o sofrimento da população local e com a destruição de áreas arqueológicas que até hoje não foram pesquisadas”.

Mártires como Irmã Dorothy Stang, Chico Mendes são casos conhecidos, mas existe tantos outros desconhecidos como o coordenador do Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e Xingu, Ademir Alfeu Federicci que lutava contra os latifundiários. A luta é constante e ainda deve ser maior. O atual governo desconstrói e destrói os direitos indígenas e dos povos que vivem na Floresta incentivando cada vez mais o agronegócio. Se a reforma agrária não se move, as terras latifundiárias crescem cada vez mais.  “A mata cresce e cobre o sangue derramado, se a justiça não é conveniente, é ausente” Diz o Bispo emérito.

Na igreja em Xingu, dois terços são comandadas por mulheres, o numero de padres é insuficiente tendo comunidades ribeirinhas com apenas cinco celebrações eucarísticas por ano. O Sínodo da Amazônia vem como apelo dessa população para que ela e o meio ambiente sejam defendidos, para dar a igreja amazônica um rosto amazônico. Segundo Dom Kräutler, alguns pontos poderão ser levantados neste Sínodo como a valorização de Leigos e Leigas sem clericalismos. O papel da mulher como evangelizadora e seu acesso ao diaconato. Um novo modelo de presbítero que não seja reservado só para homens e a enculturação das celebrações eucarísticas para povos indígenas.

A fala de Dom Kräutler foi uma fala profética que causou muitas discussões nos corredores e arredores da faculdade, no entanto, é preciso olhar com mais atenção não só com um novo modelo de igreja que pode surgir na Amazônia e se espalhar pelo mundo, mas também olhar para aquele que o Evangelho de Mateus 25,31-46 da liturgia de hoje nos remete. “Porque tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era estrangeiro e me acolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me.”

Carlos Vasconcelos, Seminarista


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